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Tributo ao Campéão

Lilian Cury

É domingo, 1º de maio de 1994, dia de Corrida de Fórmula 1 na Itália, em Ímola. Quem tinha me falado do Senna, há quase dez anos atrás, foi meu marido, ele acompanhava o tal de Senna, desde que era piloto de Kart e eu nem sabia quem era.

Na sexta-feira Rubens Barrichello já havia se acidentado fortemente, no sábado um acidente tirou a vida de Roland Ratzenberger. Parecia uma tragédia anunciada? Senna mostrava-se preocupado, antes da largada, seu olhar diferente, traduzia uma dúvida: “Vamos correr mesmo após a tragédia de ontem?”  E a FIA – Federação Internacional de Automobilismo anuncia que a corrida aconteceria.

Aguardávamos a grande largada, nosso coração pulsava no ritmo do Senna, a pressão subia, o batimento cardíaco acelerava, as mãos gelavam. Todos em seus lugares, os motores aceleram no máximo, as luzes acendem, foi dada a largada.

A cada volta, cada curva nossa emoção pilotava junto com o Senna, todos tensos, Senna liderava, de repente, meu marido fala ”O Senna bateu! É o carro dele. A última lembrança que ficou na minha memória visual daquele dia foi o carro parado e a cabeça do Senna pendendo para o lado, nenhum movimento.

Eu e meu marido nos entreolhamos, a preocupação se instalou. Chega o resgate, tiram o Senna do carro, chega o helicóptero, fica a imagem da mancha de sangue no asfalto.

Continua a corrida, mas em nossos corações fica a dúvida, a intuição, será que eles já têm a notícia da morte e não noticiaram no ar? Parecia tão grave, tão inacreditável, nem conseguimos prestar atenção ao fim da corrida. Veio um sentimento de dor, medo, raiva, angústia.

Continuamos com a TV ligada na esperança de ouvir a notícia “Ele sobreviveu, é muito forte”, é um super-homem, não está sujeito a nenhum perigo, está acima de qualquer risco de nós mortais. Aí, vem a imagem da médica italiana, “Sinto informar que o piloto Ayrton Senna acaba de falecer”

As lágrimas começam a rolar pela minha face. Que emoção estranha. Nunca estive ao lado dele e por que tanta dor? Parecia alguém tão próximo e ao mesmo tempo era desconhecido. Por quem eu chorava? Pelo Piloto? Pessoa? Ídolo? Mito? ou chorava por mim mesma? Parece que o Senna era tudo aquilo que eu não era, ele tinha um poder maior e mais forte que a vida. Eu tinha perdido meu pai, há exatamente, três meses (ele morreu no dia 1 de fevereiro de 94) A dor era diferente, não tem comparação, só que doía também.

Nas emissoras de TV, só se falava neste assunto. O famoso “Hino da Vitória”, a música conhecida,  cheia de energia e alegria que acompanhava as vitórias do Senna, agora tinha mudado. Os acordes eram os mesmos, mas não o arranjo. As notas iam tomando vida e morriam junto com ele.

Senna fez renascer o orgulho de sermos brasileiros, a capacidade de sonharmos e lutarmos pelos nossos sonhos. Quando ele vencia uma corrida, nós vencíamos junto com ele que mostrava não existir o impossível. Ele cresceu querendo vencer vivia pela vitória. Ele não só fazia o que amava! Ele amava o que fazia! Esta é a grande diferença.

“A maior dificuldade que já encontrei na vida fui eu mesmo”, frase dita por Senna. Que nobreza, que sábia humildade.  Onde está a superioridade de um tricampeão? E o orgulho do mito em forma de piloto? Era um líder natural que resgatou nossa esperança, nossa alegria, nossa emoção em torcer pela nossa terra, nosso chão, nossas raízes, nosso sangue da pátria.

Será que toda esta emoção morreu com ele? Certamente que não. A força está dentro de cada um de nós. Senna foi o “start” a “largada” para a nossa capacidade de superarmos barreiras, de acreditarmos na nossa capacidade de lutar e não nos entregarmos.

Homenagear Ayrton Senna é nosso dever. Homenageamos a nossa nobreza de caráter a “perfeição” que não temos, mas que nos impulsiona para realizar nossos sonhos de vencermos de defendermos um ideal uma história de séculos e que está em nossas mãos.

Nós somos do tamanho dos nossos sonhos.

“...e assim seja lá como for, vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor brotar
Do impossível chão”

        
Sonho impossível – Versão de Chico Buarque e Maria Bethânia

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